Os riscos dos investimentos alternativos são um dos temas que mais derrubam candidatos nas provas de certificação do mercado financeiro. O motivo é simples: a lógica de risco desses ativos não segue o mesmo padrão dos investimentos tradicionais, e quem tenta responder por intuição acaba caindo nas pegadinhas clássicas da banca.
Neste conteúdo você vai entender, de forma didática, quais riscos são característicos dessa classe de ativos, por que o retorno esperado deles costuma ser mais alto e como um ativo individualmente mais arriscado pode, na prática, reduzir o risco total da carteira.
O que significa risco em investimentos
Todo ativo possui riscos inerentes ao investimento, mas quando se trata de ativos alternativos esse aspecto se torna fundamental na tomada de decisão.
O risco está associado ao grau de incerteza sobre o retorno. Quanto maior o grau de incerteza, maior a probabilidade de o retorno realizado ser diferente do retorno esperado. E aqui entra a relação central da teoria de finanças: para compensar a possibilidade de perda, o investidor exige retornos maiores.
O mercado precifica cada investimento de acordo com o perfil de risco e retorno. Como os ativos alternativos carregam incertezas adicionais, o retorno esperado dos investimentos alternativos costuma ser mais elevado do que o dos ativos tradicionais.
Ponto de prova: retorno esperado maior não é um "bônus" do ativo alternativo. É a compensação exigida pelo investidor por assumir mais incerteza. Sempre que a questão sugerir retorno maior sem contrapartida de risco, a alternativa está errada.
Quais são os principais riscos dos investimentos alternativos
Cada investimento possui riscos específicos, mas em comparação aos investimentos tradicionais alguns riscos se destacam de forma recorrente.
Risco de não padronização
Ativos tradicionais como ações e títulos públicos são padronizados: mesma estrutura, mesmas regras, mesma forma de negociação. Já os investimentos alternativos costumam ser estruturados caso a caso, com contratos, garantias, prazos e condições próprios de cada operação.
Essa ausência de padronização exige análise individual de cada oportunidade e reduz a comparabilidade entre investimentos.
Custo maior com due diligence e originação
Como consequência direta da não padronização, o investidor precisa dedicar mais tempo e recursos para encontrar oportunidades (originação) e para analisar cada uma delas em profundidade (due diligence).
Esse custo adicional pressiona o retorno líquido e é uma característica estrutural da classe, não um problema pontual de um ou outro ativo.
Risco de retorno abaixo do esperado
Projeções de retorno em ativos alternativos dependem de premissas menos observáveis do que em renda fixa tradicional ou em ações listadas. Prazos de maturação longos, dependência de execução do gestor e ausência de preço público tornam a estimativa mais frágil, aumentando a chance de o resultado ficar aquém do projetado.
Risco de crédito
Boa parte dos ativos alternativos envolve exposição direta a contrapartes específicas: empresas, projetos, tomadores de crédito privado ou estruturas societárias. O risco de inadimplência dessas contrapartes recai sobre o investidor, muitas vezes sem a proteção de garantias líquidas.
Risco de liquidez
O risco de liquidez talvez seja o mais cobrado em prova. A negociação no mercado secundário é limitada ou inexistente, os prazos de resgate costumam ser longos e a saída antecipada, quando possível, tende a ocorrer com desconto relevante sobre o valor justo.
Ponto de prova: memorize o encadeamento lógico. Não padronização gera necessidade de due diligence, que gera custo maior. Ausência de mercado secundário ativo gera risco de liquidez. As bancas adoram cobrar essa relação de causa e efeito.
Investimentos tradicionais e alternativos: quadro comparativo
| Aspecto | Investimentos tradicionais | Investimentos alternativos |
|---|---|---|
| Padronização | Alta, estruturas homogêneas | Baixa, estruturas sob medida |
| Custo de análise | Menor, informação pública e comparável | Maior, due diligence e originação individualizadas |
| Liquidez | Mercado secundário ativo | Negociação restrita ou inexistente |
| Marcação a mercado | Preço público e frequente | Muitas vezes sem marcação a mercado |
| Retorno esperado | Menor, compatível com o risco assumido | Mais elevado, como compensação pela incerteza |
| Correlação com bolsa e renda fixa | Alta | Baixa ou reduzida |
Diversificação: por que o ativo mais arriscado pode reduzir o risco da carteira
Este é o ponto mais contraintuitivo do tema e, por isso mesmo, o mais explorado em questões de prova.
Ao introduzir investimentos alternativos na carteira, aumenta-se a diversificação de carteira. Embora o risco específico desses investimentos seja, em alguns aspectos, maior do que o dos investimentos tradicionais, na medida em que são descorrelacionados com os demais ativos, podem fazer com que o risco total da carteira seja menor.
A explicação está na correlação. O risco de uma carteira não é a simples soma dos riscos individuais: depende de como os ativos se movimentam entre si. Ativos que reagem de forma diferente aos mesmos eventos compensam oscilações uns dos outros, e o resultado é uma redução do risco total.
Ausência de marcação a mercado e volatilidade
Eventos como mudanças nos ciclos econômicos, alterações nas taxas de juros e notícias que impactam diretamente o mercado de ações e de renda fixa geralmente não impactam, ao menos de forma imediata, os investimentos alternativos que não têm marcação a mercado.
Como o valor desses ativos não é reprecificado diariamente, as oscilações de curto prazo não aparecem nas cotas. Dessa forma, os investimentos alternativos podem reduzir a volatilidade observada da carteira.
Ponto de prova: a redução de volatilidade decorre de dois efeitos que a prova costuma tratar em conjunto: a baixa correlação com ativos tradicionais e a ausência de marcação a mercado. Vale entender a diferença conceitual: a baixa correlação reduz risco de fato, enquanto a ausência de marcação reduz a volatilidade medida, sem eliminar o risco econômico do ativo.
Quadro-resumo dos riscos dos investimentos alternativos
| Conceito | O que você precisa lembrar |
|---|---|
| Risco | Grau de incerteza sobre o retorno. Mais incerteza, mais chance de o retorno diferir do esperado |
| Relação risco e retorno | O investidor exige retorno maior como compensação pela possibilidade de perda |
| Não padronização | Estruturas individualizadas, baixa comparabilidade |
| Due diligence e originação | Custo adicional decorrente da falta de padronização |
| Retorno abaixo do esperado | Premissas menos observáveis e prazos longos de maturação |
| Risco de crédito | Exposição direta a contrapartes e projetos específicos |
| Risco de liquidez | Mercado secundário restrito, saída antecipada com desconto |
| Efeito na carteira | Descorrelação aumenta a diversificação e pode reduzir o risco total |
| Volatilidade | Ausência de marcação a mercado reduz a oscilação observada da carteira |
Onde esse tema é cobrado nas certificações
Risco, retorno esperado, correlação e diversificação são conteúdos transversais: aparecem em praticamente todas as certificações do mercado financeiro brasileiro, com profundidade diferente em cada uma. Se você está estudando para uma delas, vale conferir o curso preparatório correspondente:
| Certificação | Como o tema é cobrado | Curso preparatório |
|---|---|---|
| CFP | Planejamento de investimentos, alocação de ativos e adequação ao perfil do investidor | Curso CFP |
| CFG, CGA e CGE | Gestão de recursos, construção de carteiras, correlação e risco de portfólio | Curso CFG, CGA e CGE |
| CPA, C-PRO I e C-PRO R | Fundamentos de risco e retorno e adequação de produtos ao investidor | Combo CPA, C-PRO I e C-PRO R |
| ANCORD | Produtos de investimento e riscos associados na atuação do agente autônomo | Curso ANCORD |
| CNPI | Análise de investimentos, precificação e avaliação de risco | Curso CNPI |
Exercícios comentados
Questão 1. A respeito da relação entre risco e retorno em investimentos alternativos, assinale a alternativa correta:
- a) O retorno esperado é maior porque esses ativos possuem menor risco de crédito.
- b) O retorno esperado é maior porque o investidor exige compensação pelo maior grau de incerteza assumido.
- c) O retorno esperado é igual ao dos ativos tradicionais, já que o mercado precifica todos os ativos da mesma forma.
- d) O retorno esperado é maior porque esses ativos possuem liquidez superior à dos ativos tradicionais.
Resposta: b
- a) Incorreta. O risco de crédito costuma ser maior, e não menor, pela exposição direta a contrapartes específicas.
- b) Correta. O mercado precifica cada investimento conforme o perfil de risco e retorno, e mais incerteza implica exigência de retorno maior.
- c) Incorreta. Justamente por precificar risco, o mercado atribui retornos esperados diferentes a ativos com perfis diferentes.
- d) Incorreta. A liquidez dos alternativos é tipicamente inferior, sendo um dos riscos característicos da classe.
Questão 2. Entre os riscos que se destacam nos investimentos alternativos em comparação aos tradicionais, NÃO se inclui:
- a) Risco de liquidez, pela negociação restrita no mercado secundário.
- b) Custo maior com due diligence e originação.
- c) Elevada padronização das estruturas, que limita a análise individual.
- d) Risco de o retorno ficar abaixo do esperado.
Resposta: c
- a) Incorreta como resposta, pois é de fato um risco característico da classe.
- b) Incorreta como resposta, pois o custo adicional de análise e originação é consequência direta da falta de padronização.
- c) Correta. A característica dos alternativos é a não padronização. A alternativa inverte o conceito.
- d) Incorreta como resposta, pois o retorno abaixo do esperado é um dos riscos citados para a classe.
Questão 3. Um gestor inclui ativos alternativos em uma carteira composta por ações e renda fixa. Sobre o efeito dessa decisão, é correto afirmar que:
- a) O risco total da carteira necessariamente aumenta, pois o risco específico dos alternativos é maior.
- b) O risco total da carteira permanece inalterado, pois a diversificação só atua sobre o risco sistemático.
- c) A carteira passa a sofrer impacto imediato de mudanças nas taxas de juros em todos os seus ativos.
- d) O risco total da carteira pode diminuir, pois os alternativos tendem a ser descorrelacionados dos demais ativos.
Resposta: d
- a) Incorreta. O risco de uma carteira depende da correlação entre os ativos, e não apenas do risco individual de cada um.
- b) Incorreta. A diversificação atua sobre o risco específico, e a inclusão de ativos descorrelacionados altera o risco total.
- c) Incorreta. Investimentos alternativos sem marcação a mercado geralmente não sofrem impacto imediato desses eventos.
- d) Correta. A baixa correlação aumenta a diversificação e pode reduzir o risco total da carteira, mesmo com risco específico mais elevado.
Como estudar esse tema com segurança
Perceba que os riscos dos investimentos alternativos raramente são cobrados de forma isolada. A banca cruza o tema com correlação, diversificação, perfil do investidor e adequação de produtos. Quem estuda apenas a lista de riscos decorada erra as questões aplicadas.
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Referências
- ASSAF NETO, Alexandre. Mercado Financeiro. São Paulo: Atlas.
- BODIE, Zvi; KANE, Alex; MARCUS, Alan J. Investimentos. Porto Alegre: AMGH.
- ANBIMA. Materiais de apoio e programas detalhados das certificações. Disponível no site oficial da associação.
- CFA INSTITUTE. Alternative Investments. Curriculum materials.