O Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) é um dos temas que mais aparecem nas provas de certificação e, ao mesmo tempo, um dos que mais geram confusão entre siglas parecidas. Se você já se embananou tentando lembrar quem cuida de cheque, quem cuida de título público e quem liquida em tempo real, este guia foi feito para resolver isso de uma vez.
O que é o Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB)?
O Sistema de Pagamentos Brasileiro é o conjunto de entidades, sistemas, regras e procedimentos que dão suporte à movimentação financeira e à liquidação das operações dos agentes econômicos, tanto em moeda local quanto em moeda estrangeira.
Sua finalidade prática é transferir recursos e liquidar pagamentos para pessoas, empresas, governo, Banco Central e instituições financeiras. Em outras palavras: praticamente todos os agentes da economia dependem dele.
Você usa o SPB sem perceber toda vez que:
- emite um cheque;
- faz uma compra com cartão de débito ou de crédito;
- envia uma TED ou um DOC (Documento de Crédito).
Além de operacionalizar transferências, o SPB tem um objetivo estratégico: oferecer maior proteção contra a quebra em cadeia de instituições financeiras, ou seja, mitigar o risco sistêmico.
Ponto de prova: a banca adora cobrar a finalidade do SPB. Guarde a dupla de palavras-chave: transferência de recursos e redução do risco sistêmico.
Como o SPB funciona na prática
A conta Reservas Bancárias
O sistema opera por meio da conta Reservas Bancárias, que todos os bancos mantêm junto ao Banco Central do Brasil (BACEN). É nela que as transferências entre instituições são efetivamente debitadas e creditadas.
Os bancos devem manter reserva compulsória e não podem encerrar o dia com saldo insuficiente para cobrir as transferências necessárias.
A RSFN: por onde trafegam as mensagens
No SPB, as informações são processadas por meio de mensagens transmitidas exclusivamente pela Rede do Sistema Financeiro Nacional (RSFN). Essas mensagens são padronizadas e criptografadas com padrões próprios de segurança.
Ponto de prova: a palavra "exclusivamente" costuma cair. Nenhuma outra rede transmite mensagens do SPB: é a RSFN e ponto final.
Quem é quem no SPB: câmaras, sistemas e funções
Esta é a parte que mais derruba candidato em prova. Memorize pela função, não pela sigla solta.
| Sistema ou câmara | Responsável | O que faz |
|---|---|---|
| STR (Sistema de Transferência de Reservas) | Banco Central | Liquidação bruta em tempo real das transferências de fundos entre participantes |
| SELIC | Banco Central | Escrituração e custódia dos títulos públicos federais |
| CIP (Câmara Interbancária de Pagamentos) | Setor privado | Registra compensações de crédito e pagamentos feitos via cartão de crédito |
| B3 (que hoje inclui a CETIP) | Bolsa | Custódia e escrituração de títulos de balcão, ações, derivativos e demais títulos |
| COMPE | Associada ao Banco do Brasil | Compensação e custódia de cheques |
Ponto de prova: associação rápida para não errar: título público = SELIC, cheque = COMPE, cartão de crédito = CIP, ação e derivativo = B3, tempo real entre bancos = STR.
Quais serviços integram o SPB
O SPB abrange as entidades, os sistemas e os procedimentos associados ao processamento e à liquidação de operações de transferência de fundos, de operações com moeda estrangeira ou com ativos financeiros e valores mobiliários. São integrantes do SPB os serviços de:
- compensação de cheques;
- compensação e liquidação de ordens eletrônicas de débito e de crédito;
- transferência de fundos e de outros ativos financeiros;
- compensação e liquidação de operações com títulos e valores mobiliários;
- compensação e liquidação de operações realizadas em bolsas de mercadorias e de futuros.
Essas estruturas são chamadas coletivamente de entidades operadoras de infraestruturas do mercado financeiro. A partir de 2013, os arranjos de pagamento e as instituições de pagamento também passaram a compor o SPB.
As infraestruturas do mercado financeiro desempenham papel fundamental no sistema financeiro e na economia. Por isso, é essencial que os mercados confiem na qualidade e na continuidade dos serviços prestados pelo SPB: seu funcionamento adequado é condição para a estabilidade financeira e para assegurar os canais de transmissão da política monetária (BACEN, 2013).
STR: o coração da liquidação em tempo real
O Sistema de Transferência de Reservas (STR), operado pelo Banco Central, entrou em funcionamento em abril de 2002 e marca o início de uma nova fase do SPB. Ele é um sistema de liquidação bruta em tempo real (LBTR), no qual ocorre a liquidação final de todas as obrigações financeiras no Brasil.
São participantes do STR:
- as instituições financeiras;
- as câmaras de compensação e liquidação;
- a Secretaria do Tesouro Nacional.
Com o STR, o Brasil entrou no grupo de países em que as transferências interbancárias de fundos são liquidadas em tempo real, em caráter irrevogável e incondicional. Além disso, qualquer transferência entre contas de participantes passou a depender da existência de saldo suficiente na conta do emitente.
Três condições para dar liquidez ao sistema
Para que a liquidação em tempo real funcione sem travar o mercado, três aspectos são especialmente importantes:
- o Banco Central conceder aos participantes do STR crédito intradiário, na forma de operações compromissadas com títulos públicos federais e sem custos financeiros;
- a utilização, pelos bancos, dos saldos dos depósitos compulsórios ao longo do dia para liquidar obrigações, já que a verificação de cumprimento se dá com base no saldo de final do dia;
- o acionamento, pelo Banco Central, de rotina para otimizar a liquidação das ordens mantidas em filas de espera no âmbito do STR.
Ponto de prova: "crédito intradiário sem custo financeiro" é pegadinha clássica. A prova troca por "com juros" ou "com custo reduzido". O correto é sem custos financeiros.
A reforma de 2002 e a Lei nº 10.214/2001
Até meados dos anos 90, as mudanças no SPB foram motivadas pela necessidade de lidar com altas taxas de inflação. O avanço tecnológico da época mirava principalmente o aumento da velocidade de processamento das transações.
Na reforma conduzida pelo Banco Central até 2002, o foco foi redirecionado para a administração de riscos.
| Período | Foco da evolução do SPB |
|---|---|
| Até meados dos anos 1990 | Velocidade de processamento, resposta à inflação alta |
| Reforma concluída em 2002 | Administração de riscos e redução do risco sistêmico |
| A partir de 2013 | Inclusão dos arranjos e instituições de pagamento |
Antes de abril de 2002, para não propagar a falta de liquidez de um participante aos demais, o Banco Central muitas vezes bancava operações a descoberto na conta Reservas Bancárias. Isso elevava seu risco de não receber os recursos em caso de liquidação da instituição e gerava prejuízo à sociedade brasileira.
Com as alterações nos procedimentos, houve redução significativa do risco de crédito incorrido pelo Banco Central. A reforma, porém, foi além: a base legal dos sistemas de liquidação foi fortalecida pela Lei nº 10.214/2001, que, entre outras disposições:
- reconhece a compensação multilateral;
- permite a efetiva realização de garantias no âmbito desses sistemas, mesmo na hipótese de insolvência civil de participante.
Caso uma entidade opere sistema sistemicamente importante, ela deve atuar como contraparte central e, à exceção do risco de emissor, assegurar a liquidação das operações em seu sistema.
Composição do Sistema de Pagamentos Brasileiro
O SPB é composto por:
- Banco Central;
- instituições financeiras;
- Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC);
- Câmara de Registro, Compensação e Liquidação de Operações de Ativos BM&F;
- Câmara de Registro, Compensação e Liquidação de Operações de Câmbio BM&F;
- Câmara de Registro, Compensação e Liquidação de Operações de Derivativos BM&F;
- B3 (antiga CETIP);
- Selic;
- Cielo (antiga Visanet) e Redecard;
- TecBan;
- Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP).
Quadro-resumo para revisão rápida
| Conceito | O que memorizar |
|---|---|
| Finalidade do SPB | Transferir recursos e proteger o sistema contra quebra em cadeia |
| Conta utilizada | Reservas Bancárias, mantida no BACEN |
| Rede de mensagens | RSFN, de uso exclusivo, com mensagens padronizadas e criptografadas |
| Marco da nova fase | Entrada em funcionamento do STR em abril de 2002 |
| Característica do STR | Liquidação bruta em tempo real, irrevogável e incondicional |
| Base legal | Lei nº 10.214/2001: compensação multilateral e garantias |
| Novidade de 2013 | Arranjos e instituições de pagamento passam a integrar o SPB |
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| Certificação | Para quem é | Curso |
|---|---|---|
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Exercícios comentados sobre o SPB
Questão 1
Qual sistema é responsável pela liquidação bruta em tempo real de todas as obrigações financeiras no Brasil?
- a) Sistema de Transferência de Reservas (STR)
- b) COMPE
- c) Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP)
- d) SELIC
Gabarito: A. O STR, operado pelo Banco Central, é o sistema de liquidação bruta em tempo real (LBTR) no qual há liquidação final de todas as obrigações financeiras no país, em caráter irrevogável e incondicional. A COMPE cuida de cheques, a CIP registra compensações de crédito e pagamentos com cartão de crédito e a SELIC custodia títulos públicos federais.
Questão 2
A escrituração e a custódia dos títulos públicos federais são realizadas por meio do:
- a) COMPE
- b) B3, que hoje inclui a CETIP
- c) Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP)
- d) SELIC
Gabarito: D. A SELIC é o sistema do Banco Central que faz a escrituração e a custódia dos títulos públicos federais. Já a B3, que incorporou a CETIP, custodia e escritura títulos privados negociados em balcão, ações e derivativos.
Questão 3
Qual norma fortaleceu a base legal dos sistemas de liquidação, reconhecendo a compensação multilateral e permitindo a realização de garantias mesmo em caso de insolvência civil de participante?
- a) Lei nº 4.595/1964
- b) Lei nº 6.385/1976
- c) Lei nº 10.214/2001
- d) Lei nº 9.613/1998
Gabarito: C. A Lei nº 10.214/2001 é a base legal da reforma do SPB concluída em 2002. A Lei nº 4.595/1964 estruturou o Sistema Financeiro Nacional, a Lei nº 6.385/1976 criou a CVM e a Lei nº 9.613/1998 trata da prevenção à lavagem de dinheiro.
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Referências
- BANCO CENTRAL DO BRASIL. Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB). Brasília: BACEN, 2013.
- BRASIL. Lei nº 10.214, de 27 de março de 2001. Dispõe sobre a atuação das câmaras e dos prestadores de serviços de compensação e de liquidação no âmbito do Sistema de Pagamentos Brasileiro.