Erros Cognitivos x Vieses Emocionais

Progresso das Aulas

As heurísticas, ainda que positivas por aumentarem a eficiência do processo de decisão em momentos nos quais gastar energia e tempo em uma análise minuciosa de grande volume informacional seria contraproducente, podem provocar vieses de pensamento, levando a equívocos nos processos de raciocínio e resultando em decisões potencialmente erradas. Esses erros de raciocínio podem ser divididos em dois grandes grupos — em termos de formalização, já que, na prática, essa divisão não é tão simples —, os erros cognitivos e os erros emocionais.

Os pressupostos das finanças tradicionais afirmam que os indivíduos agem como homens econômicos racionais que consideram objetivamente todas as informações relevantes para seu processo de tomada de decisão. Além disso, argumentam que é desse processo que resultam os mercados eficientes. Nesse contexto, as finanças comportamentais analisam o comportamento normal dos participantes individuais do mercado — no caso da microfinança comportamental — e os efeitos agregados desse comportamento — no contexto das macrofinanças comportamentais.

Uma melhor compreensão dos vieses cognitivos dos clientes, assim como dos profissionais, pode permitir a construção de carteiras que melhor se aproximem da eficiência das finanças tradicionais e às quais os clientes possam aderir melhor em condições adversas.

Os erros cognitivos são devidos principalmente a raciocínios defeituosos e podem resultar da falta de compreensão de técnicas de análise estatística adequadas, ou de erros no raciocínio ou processamento da informação, ou, simplesmente, falhas de memória. Geralmente tais erros podem ser corrigidos ou mitigados a partir de melhores treinamentos ou informações melhoradas.

Em oposição, os distúrbios emocionais não estão relacionados ao pensamento consciente e decorrem de sentimentos, impulsos ou da intuição. Nesse sentido, eles são mais difíceis de serem superados e às vezes precisam ser acomodados.

Apesar da distinção dos vieses como cognitivos ou emocionais, um viés pode ter elementos de cognição e emoção. Ao tentar superar ou mitigar os vieses emocionais e cognitivos, o sucesso é mais provável ao nos concentrarmos nos problemas cognitivos.

Em geral, os erros cognitivos são mais fáceis de serem mitigados ou corrigidos com melhores informações, por meio das perguntas certas ou da busca de conselhos qualificados. Nos próximos parágrafos discutimos os principais erros identificados como cognitivos.

 

Erros cognitivos

Os erros cognitivos podem ser divididos em cinco vieses de “perseverança de crença”, os quais refletem o desejo de manter uma decisão anterior. Alternativamente, podem ser divididos em quatro vieses de “erros de processamento”, em que o processo de análise de informações é falho. A seguir, você conhecerá um pouco mais sobre cada um, começando pela divisão por erros de perseverança de crença.

 

Viés do conservadorismo

Ocorre quando os participantes do mercado formam uma visão inicial e posteriormente não conseguem alterá-la à medida que novas informações se tornam disponíveis. Conforme a terminologia bayesiana, eles apresentam excesso de peso nas probabilidades iniciais e não as ajustam para a nova informação. Nesse contexto, consequências e implicações do conservadorismo podem incluir participantes do mercado que são muito lentos para atualizar uma visão e, portanto, manter um investimento muito longo. Podem também incluir os investidores que mantenham um investimento por tempo demasiado de modo a evitar o esforço mental ou o estresse da atualização de uma visão.

A detecção de conservadorismo começa com o reconhecimento dos próprios preconceitos e vieses por parte dos investidores. Quanto mais difícil o processo de pensamento ou processamento de informação, mais é provável que o viés de conservadorismo esteja presente. Por outro lado, as mudanças mais fáceis podem ser implementadas diversas vezes, pois isso envolve pouco esforço mental. Desse modo, o conservadorismo pode implicar mudanças no volume de negócios, com períodos de poucos negócios seguidos de períodos com grandes volumes.

 

Viés de confirmação

Esse viés ocorre quando os participantes do mercado buscam novas informações ou as distorcem para suportar uma verdade existente. O viés de confirmação é um tipo de viés de seleção. Nesse contexto, os clientes que se envolvem no processo de portfólio, por meio da pesquisa de algumas de suas ações na carteira, podem ficar excessivamente vinculados a algumas delas de modo a exibir apenas informações favoráveis à sua participação no portfólio.

Consequências e implicações do viés de confirmação podem incluir: (i) participantes do mercado que sempre consideram as informações positivas, mas ignoram informações negativas e, portanto, mantêm os investimentos por muito tempo; (ii) investidores que configuram o processo de decisão (ou mesmo seus monitores de dados) incorretamente de modo a encontrar aquilo que desejam ver.

O viés de confirmação também possui efeito sobre a diversificação. Além disso, a detecção desse viés começa com a busca de visualizações e informações contrárias. Por exemplo, se um analista se concentrar em  uma análise fundamentalista positiva, ele poderá consultar um indicador econômico com impacto negativo de modo a obter uma visão alternativa.

 

Viés de representatividade

Esse viés tem base na crença de que o passado persistirá e as novas informações serão classificadas com base em experiências ou repetições de classificações passadas. Embora isso possa ser eficiente, a nova informação pode ser mal interpretada se for classificada a partir de uma semelhança superficial com o passado. Dois exemplos desse viés são a negligência da taxa básica e a negligência do tamanho da amostra.

A negligência da taxa básica, em que a taxa básica nada mais é do que a probabilidade da classificação inicial, não é adequadamente considerada. Essencialmente, é quando o investidor considera que uma informação está 100% correta sem levar em conta que este pode não ser o caso. Nesse contexto, uma ação pode ser classificada como uma ação de valor, e novas informações sobre ela, as quais vierem a ser analisadas com base nessa classificação, não impactam a visão do investidor sobre essa ação, a qual, na verdade, sequer pode ter sido uma ação de valor desde o início.

Já a negligência do tamanho da amostra refere-se à classificação inicial. Nesse sentido, considera-se que a classificação inicial é baseada em uma amostra de dados excessivamente pequena e potencialmente irreal. Ainda assim, o investidor assume que a informação dessa amostra representa todo o conjunto. Por exemplo, a classificação inicial de uma ação pode ser baseada no rendimento de dividendos sem considerar nenhuma das outras características típicas da avaliação de uma ação.

Como consequências e implicações do viés de representatividade, podemos incluir os participantes do mercado que conferem muita importância a novas informações e possuem um volume de negócios excessivo, assim como os investidores que tomam decisões com base em regras simples sem uma análise completa e mais profunda, atribuindo muita ou nenhuma importância a novas informações.

A detecção do viés de representatividade inicia-se a partir de uma melhor compreensão das leis de probabilidade e análise estatística. Nesse contexto, as perguntas úteis que podem detectá-l0 envolvem a avaliação da probabilidade de um determinado investimento ser categorizado corretamente conforme um certo grupo de ideias. Sendo assim, a consideração de probabilidades torna possível que o risco seja levado em conta de modo que uma diversificação suficiente ocorra. 

 

Viés de controle 

Esse viés existe quando os participantes do mercado acreditam que podem controlar ou afetar os resultados — quando, na verdade, não podem fazê-lo. Muitas vezes, ele está associado a preconceitos emocionais, como a ilusão de conhecimento — ou seja, a crença de que você conhece coisas que de fato não conhece — ou a autoatribuição, que é crença de que você próprio causou algo. Ainda, pode estar relacionado a vieses de excesso de confiança, que diz respeito a uma crença injustificada de que se está certo.

Entre as consequências e implicações do viés de controle, podemos incluir participantes do mercado que negociam mais do que seria apropriado, pois eles acreditam equivocadamente que podem controlar o resultado de uma negociação ou estão superconfiantes em suas análises. Esse viés também pode ocasionar falhas na diversificação adequada. Desse modo, de forma a superar o viés de controle é preciso considerar que os resultados de investimentos são probabilísticos, e os participantes devem procurar pontos de vista opostos para considerar resultados alternativos. Além disso, devem manter bons registros para documentar o pensamento que confere forma às suas ideias e revisar os resultados de modo a avaliar se existem padrões conforme os quais essas ideias funcionam.

 

Hindsight (ou viés de seleção)

Trata-se de um viés de memória em que o investidor apresenta uma memória seletiva em relação a eventos passados, ações ou ao que já foi conhecido. Nesse contexto, os participantes tendem a selecionar as opiniões corretas e esquecer os erros. Eles também superestimam o que poderia ter sido conhecido. Nesse contexto, consequências e implicações desse viés podem incluir participantes do mercado que superestimam a taxa em que houve previsão correta. Além disso, como consequência, há investidores que podem tornar-se excessivamente críticos em relação ao desempenho de outros. Por exemplo, eles podem criticar as seleções de ações de um analista cujas recomendações apresentaram desempenho inferior ao mercado, mesmo quando essas recomendações superarem os índices de mercado pelos quais o analista era responsável.

A seguir, conheça os erros cognitivos no que se refere ao processamento de informações.

 

Viés de ancoragem

Esse viés é reconhecido quando os participantes do mercado utilizam a experiência de heurística psicológica baseada em regras de teste e erro para afetar indevidamente as probabilidades. Nesse contexto, as mudanças são feitas em relação à visão inicial, de modo que elas são inadequadas. Geralmente, quando os indivíduos são forçados a estimar algo, eles selecionam um valor inicial arbitrário e, a partir de então, tentam ajustá-lo para cima ou para baixo enquanto processam informações. Isso o torna intimamente relacionado ao conservadorismo e à relutância em mudar à medida que novas informações são recebidas.

Novas informações não dependem de estimativas iniciais ou pontos de partida, de modo que os novos dados devem ser considerados de forma objetiva, independentemente de qualquer ponto de ancoragem inicial. Como consequências e implicações do viés de ancoragem, podemos incluir os participantes do mercado que permanecem ligados a uma estimativa inicial e não se adaptam a novas informações.

A detecção do viés de ancoragem começa com perguntas como: “Estou mantendo essa ação por que originalmente a recomendava a um preço mais alto? Em outras palavras, estou me tornando dependente desse preço anterior? Ou recomendaria essa ação com base em uma análise totalmente nova se esta fosse a primeira vez em que a avaliasse?”.

 

Viés de contabilidade mental

Esse viés surge quando o dinheiro é tratado de forma diferente, dependendo do modo pelo qual é categorizado. Por exemplo, um cliente pode mentalmente tratar os salários de forma diferente de um bônus ao determinar metas de poupança e de investimento.

Vejamos um exemplo clássico: um indivíduo entra no mercado para comprar uma garrafa de água e se assusta ao descobrir que ela está custando 10 reais. Ao saber que em outro mercado, 100 metros de distância de onde ele está, a mesma garrafa custa 5 reais, ele caminha os 100 metros para ter essa economia de 5 reais. No entanto, este mesmo indivíduo, ao comprar um tênis por 380 reais, não andaria 100 metros para comprar o mesmo tênis numa loja onde ele estivesse custando 375 reais, ainda que a economia seja também de 5 reais. Ou seja, a mesma economia de 5 reais está sendo avaliada de forma diferente.

Como implicações desse viés, é possível citar as falhas ao tentar reduzir o risco do portfólio a partir da adição de ativos com uma correlação muito baixa, assim como segregar os retornos em categorias arbitrárias de renda, ganhos e perdas realizadas (ou ganhos e perdas não realizados). O resultado tende a apresentar uma ênfase excessiva nos ativos geradores de renda, o que implica um menor retorno total.

O viés de contabilidade mental pode ser detectado a partir da avaliação do que o portfólio poderia ter alcançado se os ativos do cliente fossem examinados como um portfólio único, isto é, considerando os efeitos da correlação entre todas as partes da carteira. Nesse contexto, um foco excessivo na fonte de retorno, ou seja, na renda versus valorização, pode ser detectado através da análise do retorno total máximo consistente com o objetivo de risco do investidor e restrições. Se isso for consideravelmente melhor do que o retorno esperado existente do portfólio, muita atenção está sendo voltada para a fonte de retorno.

 

Narrow Framing (viés de estruturação ou viés de enquadramento)

Considere as duas formas seguintes de se apresentar um mesmo investimento para um investidor:

  • A: Tenho uma ótima oportunidade de investimento para o senhor. Trata-se da aquisição de uma casa, sendo que 70% das casas desta região apresentaram aumentos superiores a 10% ao ano de seu valor;
  • B: Tenho uma ótima oportunidade de investimento para o senhor. Trata-se da aquisição de uma casa. Porém, devo ressaltar que 30% das casas desta região apresentaram aumentos inferiores a 10% ao ano de seu valor.

 

Observe que, em ambos os exemplos, a informação oferecida é exatamente a mesma. Porém, o primeiro exemplo apresenta a informação de forma mais otimista, destacando que 70% das casas da região apresentaram valorização superior a 10% de seus preços. Ao destacar essa informação, o investidor é levado a crer que o investimento terá uma valorização superior a 10%. Por outro lado, o exemplo B apresenta a informação de modo mais pessimista, destacando que 30% das casas apresentam valorização inferior a 10%. Ao ressaltar os casos em que a valorização foi baixa, o investidor é posto em situação de alerta, pois passa a considerar que existe a possibilidade de não conseguir obter um bom retorno com o investimento. Assim, no exemplo A, a informação é apresentada de modo a estimular o investidor a sobrevalorizar o retorno do investimento, atribuindo pouca importância ao risco incorrido e levando-o a adquirir a casa. Por outro lado, o exemplo B destaca os riscos que serão incorridos pelo investidor, desestimulando-o a realizar o investimento.

Esse viés ocorre quando as decisões são afetadas pelo modo como a questão ou os dados são “enquadrados”, sendo também abordado como efeitos de estruturação. Em outras palavras, a forma como a questão é enquadrada afeta o modo como ela é processada, levando à resposta recebida. 

Se apenas um ou dois pontos de referência forem considerados, como no exemplo acima, poderia ser chamado de enquadramento estreito. Entre as consequências e implicações do viés de enquadramento, podemos incluir a falha em avaliar corretamente o risco e acabar nos extremos, com excesso de aversão ao risco ou uma procura exagerada por este. Nesse sentido, a escolha subótima de um risco para sua carteira tem base na forma como a apresentação é feita. Desse modo, o viés de enquadramento pode ser detectado a partir de uma pergunta como: “Minha decisão é baseada na realização de um ganho ou de uma perda?”.

 

Viés de disponibilidade

Esse viés começa com uma ênfase indevida na informação que está prontamente disponível. Trata-se de um atalho mental para se concentrar excessivamente no que é fácil de se obter. O viés de disponibilidade pode incluir alguns ou todos os seguintes:

  • Recuperabilidade, ou a conclusão errada sobre a frequência de um evento em razão de como a estrutura de memória individual afeta o processo de busca de informação. 
  • Recordação, ou quando eventos mais facilmente lembrados são considerados mais prováveis.
  • Correlação ilusória, acontece quando a correlação entre dois eventos conhecidos é erroneamente assumida.

 

Como consequências e implicações do viés de disponibilidade, podemos incluir participantes do mercado que escolhem um gerente com base em publicidade ou lembrando que eles ouviram o nome. Nessa lógica, investidores que se limitam a opções de investimento com as quais estão familiarizados têm como resultado pouca diversificação, além de uma atribuição inadequada de ativos. Desse modo, o viés de disponibilidade poderia ser superado a partir de uma declaração de política de investimento, o IPS, cuidadosamente pesquisado e construído, ou através de pesquisas e análises adequadas de todas as decisões, com um foco no longo prazo.

Os problemas criados pelo viés de disponibilidade incluem overreacting, isto é, uma reação excessiva a um evento, além de um elevado volume de negociação com base em notícias recentes que estejam facilmente disponíveis, ou contando com informações disponíveis de amigos, ou opiniões de baixa qualidade e relevância.

 

Tabela – Erros cognitivos.

Fonte: Elaborada pelo autor. 


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Doutor em Economia pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestre em Economia Aplicada (quantitativa) pela UFPEL. É economista, especializado em Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atuou como Agente Autônomo de Investimentos (ANCORD), Analista e Controller. Pesquisador com publicações científicas internacionais sobre efeitos spillover e herd behavior no mercado de capitais. Autor de 7 livros.
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