Finanças Comportamentais e a Construção de Portfólios

Progresso das Aulas

Nesta sessão, veremos algumas implicações adicionais dos vieses sobre a política de investimentos e alocação de ativos.

Gestores de investimentos que compreendem os vieses comportamentais têm uma melhor chance de construir e gerenciar portfólios que beneficiem os clientes. Dessa forma, ao reconhecer e, em seguida, acomodar ou modificar vieses, provavelmente haverá resultados mais próximos dos resultados ótimos. Isso começa com as perguntas certas, como: “Quais são os vieses do cliente?” ou “Eles são principalmente emocionais ou cognitivos? Como eles afetam a alocação de ativos do portfólio? Os vieses devem ser moderados ou adaptados?”

Ao realizar o proposto no parágrafo anterior, identificamos o que é conhecido como investimento baseado em objetivos. Esse investimento começa com o estabelecimento da importância relativa de cada um dos objetivos para o cliente:

  • As necessidades e obrigações essenciais devem ser identificadas e quantificadas primeiramente, o que inclui as despesas essenciais da vida, que devem ser atendidas com investimentos de baixo risco, como a camada base dos ativos da carteira;
  • Em seguida, podem vir os resultados desejados, como a doação anual de caridade, que pode ser encontrada a partir de uma camada de investimentos de risco moderado;
  • Finalmente, existem as aspirações de baixa prioridade, como aumentar o valor da carteira de modo a deixá-la como uma base na morte, as quais podem ser encontradas com investimentos de maior risco.

 

O investimento baseado em objetivos é consistente com o conceito de aversão à perda na teoria do prospecto. Nesse contexto, o cliente pode identificar quais são as metas mais importantes que estão expostas a ativos menos arriscados e, portanto, sujeitas a menores perdas potenciais. Isso é mais adequado quando se trata da preservação da riqueza ao invés de sua acumulação. Desse modo, ao utilizar a contabilidade mental das camadas para atingir objetivos, o cliente pode entender melhor a construção do portfólio. Outra forma possível seria a utilização da chamada alocação de ativos modificados de forma comportamental. Essa alocação, como o nome sugere, incorpora os vieses comportamentais do cliente.

Um cenário geralmente desagradável para muitos clientes é o abandono de uma estratégia de investimento em períodos adversos. O resultado pode ser muito prejudicial porque a mudança provavelmente ocorrerá em um ponto baixo na curva de rendimento, isto é, antes da recuperação da estratégia. Nesse contexto, determinar antecipadamente uma estratégia a que o cliente poderia aderir durante períodos adversos constituiria um resultado melhor.

A alocação de ativos modificados de forma comportamental considera se é melhor moderar ou adaptar-se aos vieses do cliente para construir um portfólio no qual ele possa sentir-se confortável. Essa metodologia começa com a identificação de uma alocação estratégica ideal de ativos que seja consistente com as finanças tradicionais. Em seguida, considera a riqueza relativa do cliente e a natureza emocional em contraposição à cognitiva de forma a ajustar essa alocação.

Geralmente os vieses de natureza cognitiva são mais fáceis de serem moderados. Nesse contexto, trabalhar com o cliente pode reduzir esses vieses e permitir um menor desvio de um portfólio tradicionalmente eficiente. De modo oposto, é mais difícil moderar os vieses baseados em emoções, de modo que às vezes precisam ser adaptados, o que resulta em um portfólio menos eficiente. Além disso, a quantidade de desvio de uma alocação ótima tradicional que pode ser aceita precisa ser estabelecida.

 

Finanças comportamentais e o processo de investimento

Nesta sessão, apresentaremos a influência dos traços comportamentais em todos os aspectos do processo de investimento. Além disso, veremos como os vieses comportamentais afetam os processos de tomada de decisão dos comitês de investimento.

Primeiramente, espera-se que o gestor seja capaz de classificar os investidores conforme a especificidade de seus conhecimentos, podendo, assim, ser capaz de explicar os usos e as limitações da classificação segundo as diferentes categorias de personalidade. Isso porque os participantes do mercado financeiro, tanto os investidores como consultores financeiros, perceberam que, quando a finança comportamental é reconhecida na criação da declaração de política de investimento do cliente e sua implementação é subsequente, o resultado provavelmente será favorável.

Aplicar uma perspectiva de investimento estritamente tradicional pode levar a armadilhas e surpresas desagradáveis para o cliente e o gestor. Por exemplo, os investidores que são excessivamente avessos ao risco, ou excessivamente propensos a este, reagem de modo mais emocional ao investimento em relação ao investidor típico. Além disso, o gestor terá um maior sucesso ao abordar os distúrbios emocionais desses clientes em vez de ignorá-los de modo a apresentar uma perspectiva de financiamento mais tradicional.

A perspectiva das finanças tradicionais procura educar os clientes com base em medidas quantitativas de investimento, como o desvio-padrão ou os índices Sharpe, os quais são de pouco interesse para o cliente que reage mais emocionalmente ao investimento. Nesse contexto, o objetivo de pensarmos na relação cliente/gestor sob uma perspectiva comportamental em comparação com uma perspectiva de financiamento puramente tradicional é que o gestor compreenda seu cliente de modo mais aprofundado para que possa tomar as melhores decisões de investimento.

Ao incorporar distorções comportamentais nas declarações de política de investimentos, os IPS e as carteiras dos clientes tendem a estar mais próximas da fronteira eficiente, e os clientes estarão mais confiantes e satisfeitos e tenderão a acompanhar seus planos estratégicos de longo prazo. Em última análise, uma vez que todos estão felizes, o resultado será uma melhor relação de trabalho entre cliente e gestor.

A seguir observe alguns modelos comportamentais.

  • o modelo bidirecional Barnewall;
  • o modelo Bailard, Biehl e Kaiser de cinco caminhos; e
  • o modelo de Pompian.

 

Modelo bidirecional Barnewall

O modelo bidirecional Barnewall foi desenvolvido em 1987 e classifica os investidores em apenas dois tipos: o passivo e o ativo. Investidores passivos são aqueles que não tiveram de arriscar seu próprio capital para obter riqueza. Por exemplo, eles poderiam ter obtido riqueza através de um emprego longo e estável, uma economia disciplinada ou através de herança. Como resultado da acumulação passiva de riqueza, esses investidores tendem a ser mais avessos ao risco e ter uma maior necessidade de segurança do que os ativos.

Quanto aos investidores ativos, eles arriscam seu próprio capital de forma a obter riqueza e geralmente assumem um papel ativo ao investir seu próprio dinheiro. Além disso, eles são muito menos avessos ao risco do que os investidores passivos e estão dispostos a desistir de sua segurança para controlar a própria criação de riqueza.

 

O modelo Bailard, Biehl e Kaiser de cinco caminhos

Já o modelo de cinco vias Bailard, Biehl e Kaiser (BB&K), desenvolvido em 1986, classifica os investidores ao longo de duas dimensões de acordo com a forma como se comportam na vida em geral.

A primeira dimensão, a confiança, identifica o nível de confiança geralmente exibido quando o indivíduo toma suas decisões. Esse nível pode variar de confiante a ansioso.

A segunda dimensão, método de ação, mede a abordagem do indivíduo em sua tomada de decisões. Dependendo se o indivíduo é metódico na tomada de decisões ou tende a ser mais espontâneo, o método de ação pode variar de cuidadoso para impetuoso. Além disso, o modelo BB&K classifica os investidores de acordo com seus tipos comportamentais, que se situam em pontos diferentes em uma grade formada por confiança/método de ação. A seguir são apresentadas as categorias.

 

O investidor aventureiro possui os seguintes traços:

  • confiante e impetuoso;
  • capaz de segurar portfólios altamente concentrados;
  • possui disposição para correr riscos;
  • gosta de tomar suas próprias decisões;
  • não gosta de conselhos;
  • os gestores têm dificuldade de trabalhar com eles.

 

O investidor celebridade possui as seguintes características:

  • ansioso e impetuoso;
  • pode apresentar opiniões, mas reconhece a existência de limitações;
  • procura e aceita conselhos sobre investimento.

 

O investidor individualista apresenta os seguintes traços:

  • confiante e cuidadoso;
  • gosta de tomar suas próprias decisões após uma análise cuidadosa;
  • bom convívio no trabalho porque escuta e processa informações de forma racional.

 

Já o investidor tutor apresenta os seguintes traços:

  • ansioso e cuidadoso;
  • preocupado com o futuro, de modo que prefere proteger seus ativos;
  • pode buscar o conselho de alguém que considera mais experiente.

 

Viés de status quo

Isso porque os investidores não alteram seu portfólio mesmo quando os custos de transação são equivalentes a zero. Nesse sentido, a teoria da carteira sugere claramente que, à medida que o tempo passa e os investidores envelhecem, a combinação ideal de portfólio se modifica. Todavia, essas mudanças não estão sendo realizadas. Além disso, os investidores geralmente aceitam qualquer opção de investimento padrão oferecida pelo gestor. De modo a contrariar esse viés, algumas empresas têm opções de piloto automático, como os fundos com data alvo. Esses fundos apresentam uma data de aposentadoria declarada, e o gerente muda automaticamente a combinação de ativos de forma adequada para os investidores que planejam aposentar-se nessa data. Uma vez que o investidor escolhe o fundo da data alvo, o gerente realiza os ajustes para a passagem do tempo, de modo que o cliente não precisa adotar nenhuma ação.

 

Diversificação ingênua

Ocorre à medida que os investidores dividem os fundos entre qualquer grupo de fundos que é oferecido. De acordo com um estudo, quando é oferecido um fundo de ações e títulos, os investidores geralmente atribuem uma distribuição de 50/50. Desse modo, quando são oferecidos um fundo equilibrado e uma ação, eles também atribuem 50/50. Outros estudos sugerem ainda que os investidores se sujeitam a uma diversificação ingênua condicional, isto é, eles selecionam um número menor de fundos, por exemplo, de três a cinco, e, em seguida, realizam alocações iguais. Em ambos os casos, alguns argumentam que isso é motivado pela tentativa de evitar o viés de arrependimento, pois, ao possuir quantidades iguais de cada um, os investidores não perdem o melhor desempenho.

 

Concentração excessiva em ações do próprio empregador

Trata-se de um comportamento arriscado. Os funcionários podem pensar: “Eu conheço a empresa e a vejo todos os dias, e certamente é um bom investimento”. Nesse caso, se o desempenho passado foi bom e você está familiarizado com isso, seria uma extrapolação ingênua de resultados passados. O efeito do viés de enquadramento e status quo das contribuições de correspondência é exibido como se a contribuição do empregador estivesse expressa na sua ação. Sendo assim, os funcionários aumentam o valor que escolheram para colocá-lo na ação do empregador.

O efeito da lealdade é simplesmente um desejo de manter a ação do empregador como sinal de lealdade à empresa. Desse modo, quando os incentivos financeiros são oferecidos pelo empregador para investir em ações, a decisão pode ser racional, mas as participações são superiores ao que poderia ser justificado.

 

Negociação excessiva de ações

Essa negociação é evidente nas contas de clientes em corretora de valores. Isso se deve ao viés de excesso de confiança, conforme o qual os indivíduos acreditam que possuem habilidades superiores de seleção de ações ou autosseleção, já que os investidores orientados para negociação investem seu dinheiro em contas de corretagem, enquanto outros o investem em carteiras de aposentadoria em sua empresa. Os investidores também demonstram o efeito disposição na venda de ações que apreciam, ou seja, as ações vencedoras, enquanto seguram aquelas que se depreciam, isto é, as perdedoras.

Nesta seção, vimos que os investidores apresentam vieses comportamentais quando constroem suas carteiras em camadas, compreendendo uma pirâmide em que cada camada apresenta um propósito específico na consecução de um objetivo diferente. Isso também é referido como contabilidade mental, porque os ativos em cada camada da pirâmide são vistos separadamente um do outro, sem considerar como eles estão correlacionados. Na estrutura dessa pirâmide, os objetivos mais urgentes são dispostos na camada inferior, sendo atendidos a partir de investimentos de baixo risco e conservadores. Cada camada sucessiva que conduz ao topo da pirâmide é composta por recursos mais arriscados para atingir metas menos imediatas ou menos importantes. Já o topo da pirâmide é composto por recursos arriscados e mais especulativos de modo a atender aos tipos de objetivos da lista de desejos do investidor.

A aplicação das finanças comportamentais beneficia o processo de gerenciamento de portfólio, pois, quando aplicada à gestão de carteiras, tais como as de fundo alvo, aproximam essas carteiras ótimas segundo a perspectiva das finanças tradicionais. Por fim, vimos que os gestores e clientes podem discutir a importância relativa dos objetivos e do risco percebido, de modo que as carteiras de investimento do cliente são mantidas de forma que o cliente possa entendê-las e, consequentemente, mantê-las por tempo superior em relação àquele que seria possível seguindo apenas as finanças tradicionais.


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Doutor em Economia pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestre em Economia Aplicada (quantitativa) pela UFPEL. É economista, especializado em Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atuou como Agente Autônomo de Investimentos (ANCORD), Analista e Controller. Pesquisador com publicações científicas internacionais sobre efeitos spillover e herd behavior no mercado de capitais. Autor de 7 livros.

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