Resumo CNPI: Fundamentos da Análise Técnica

Progresso das Aulas

FUNDAMENTOS DA ANÁLISE TÉCNICA.

1.1 PRINCIPAIS PREMISSAS

A análise técnica é um conjunto de métodos de avaliação de investimentos que se baseia na análise das séries de preços passadas para prever o comportamento futuro desses preços. Ela objetiva identificar tendências e antecipar o comportamento do mercado, assim, orientando decisões de compra, venda ou, até mesmo, permanência neutra.

Para que as oscilações de preços passadas possam orientar decisões futuras é necessária uma premissa básica: os preços apresentam padrões que se repetem. Aceitar essa premissa implica concordar com a violação de uma das hipóteses de mercado eficiente, considerada por muitos estudiosos das finanças clássicas.

O termo mercado eficiente consiste em aceitar que todas as informações disponíveis já estão incorporadas aos preços presentes e, portanto, o preço só depende de novas informações. No entanto, o mercado pode apresentar níveis de eficiência. São elas:

Figura – 3 tipos de eficiência.

Fonte: Elaborado pelo autor.

A análise técnica implica considerar a violação da hipótese mais básica das três citadas: eficiência fraca. A principal justificativa utilizada é a de que os investidores não agem totalmente independentes uns dos outros, ou seja, eles observam as ações dos demais, apresentam padrões de escolhas baseadas em vieses psicológicos e são sugestionáveis. Esses padrões e recorrências do comportamento dos investidores permite ao analista técnico identificar movimentos do mercado que antecedem tendências nos preços. Portanto, toda essa dinâmica culmina em três princípios básicos:

  • A ação do mercado reflete todos os fatores envolvidos neste;
  • Os preços se movimentam em tendências; e
  • O futuro repete o passado.

A análise técnica pode ser segmentada em duas formas:

  • Análise Gráfica

A análise gráfica, como o próprio nome diz, objetiva a identificar padrões das séries financeiras em gráficos de preços e, assim, apontar tendência de queda ou de crescimento dos preços. Entre as ferramentas mais utilizadas, podem ser destacadas: gráficos de barras, linhas de suporte, linhas de resistência, ondas de Elliot, entre outras. É comum a atribuição do termo “grafista” aos analistas que utilizam essas técnicas.

  • Análise Técnica Computadorizada

Já análise técnica computadorizada utiliza indicadores técnicos baseados nas medidas das séries de preços: média, mínimo, máximo, variância, entre outros. Essa técnica é considerada menos subjetiva que a análise gráfica.

1.2 DIFERENÇAS ENTRE A ANÁLISE TÉCNICA E A ANÁLISE FUNDAMENTALISTA

A forma e o momento em que se utiliza uma técnica de investimentos define o sucesso do investidor. Portanto, o analista deve saber as vantagens e desvantagens de cada técnica, assim como o uso mais apropriado de cada uma delas. Principalmente, é preciso destacar que há duas escolas principais de análise de investimentos:

A análise fundamentalista é indicada para investimentos em ações com horizontes de tempo maiores que os adotados pela análise técnica, pois a escola fundamentalista observa a estrutura da empresa (fundamentos) e é mais adotada por bancos (credores de longo prazo), fundos de pensão e demais interessados no desempenho da empresa em períodos abrangentes: desempenho nos próximos semestres ou anos.

A análise técnica observa o histórico de preços. Portanto, não é necessariamente adotada apenas para ações (como é o caso da fundamentalista). Assim, essa técnica pode ser aplicada aos demais ativos. Todavia, aplica-se a horizontes de curto prazo: dias e semanas.

É importante destacar que a análise fundamentalista se preocupa com o “porquê” do investimento no ativo, uma vez que avalia a qualidade do investimento realizado, como: capacidade de uma empresa honrar pagamentos, necessidade de caixa, capacidade de gerar lucro, entre outros fatores. Para isso, são observados e comparados os demonstrativos financeiros da empresa com os das demais empresas no mercado, os indicadores macroeconômicos e as expectativas de crescimento, aumentando assim a confiabilidade do investimento realizado. Observe que ela não garante o investimento, mas reduz a insegurança ao buscar identificar o “real valor de uma empresa”, chamado de valor intrínseco. A análise fundamentalista pressupõe que o valor de mercado da empresa (valor da empresa em ações) tende ao valor encontrado pela análise fundamentalista, mesmo que demore anos para isso.

Já a análise técnica não se preocupa com a qualidade do investimento realizado, mas sim com o momento do investimento. Portanto, ela ignora todos os demonstrativos financeiros e se preocupa com a identificação da melhor oportunidade para a venda ou compra.

É possível perceber que as duas escolas não se opõem; ao invés, elas se complementam. Por exemplo, o investidor que busca longo prazo pode utilizar a análise fundamentalista para selecionar o ativo e a análise técnica para determinar o momento da compra. No entanto, essa análise em conjunto nem sempre é necessária, isso dependerá de:

  • Horizonte de tempo: operações de compra e venda em períodos curtos de tempo (dias, semanas ou minutos) não necessitam de uma análise fundamentalista apurada;
  • Ativo: a análise fundamentalista não pode ser aplicada a determinados ativos, como os derivativos de commodities agrícolas, ao contrário da análise técnica. E mesmo que seja uma ação, uma empresa em situação financeira ruim ainda pode oferecer ganhos em relação a oscilação de preços.
  • Informações disponíveis: as informações utilizadas pela análise fundamentalista são disponibilizadas em intervalos longos de tempo (como demonstrações trimestrais); já os preços das ações e volumes são disponibilizados automaticamente.

1.3 TIPOS DE GRÁFICOS

Os analistas técnicos que se utilizam de ferramentas gráficas buscam elaborar canais de tendência conforme a amplitude das variações ocorridas nos preços. Esses recursos podem ser adotados como forma de identificar a mudança na posição no mercado, ou seja, figuras identificadas nos gráficos ou movimentos particulares podem significar aumentos anormais nos preços ou quedas subsequentes.

Os movimentos nos preços, como estabilidade, alta ou quedas são identificados em gráficos conforme o corte temporal (período analisado) e frequência (diário, semanal, anual). Para isso, são adotados diferentes gráficos. Entre eles, podem ser destacados quatro gráficos principais:

Figura – Gráfico de Linha.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Figura – Gráfico de Barras e Volume.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Figura – Gráfico de Candlestick.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Figura – Exemplo de Candlestick.

Figura – Gráfico de Ponto e Figura.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Cada um apresenta suas vantagens e desvantagens e foram elaborados para agregar informações ao observador. Os gráficos geralmente são apresentados segundo um eixo vertical de valor e um eixo horizontal de tempo. Porém, também há gráficos que observam o volume (quantidade) negociado na vertical. Nesse caso, geralmente é demonstrado abaixo do gráfico de preços.

O gráfico de linha é o mais comum entre eles. Nele são demonstrados os preços dos ativos analisados. Para uma ação, por exemplo, podem ser adotados os preços de encerramento do dia (o mais comum), aberta do dia, máxima do dia ou mínima do dia. Observe o exemplo da empresa Pão de Açúcar:

1.4 ESCALAS ARITMÉTICA E LOGARÍTMICA

As escalas utilizadas em um gráfico podem interferir na decisão tomada, pois elas realçam ou diminuem determinados movimentos e, assim, alteram o foco do observador.

A escolha da escala define as proporções dos gráficos e alteram a forma como os movimentos do mercado são demonstrados. A mais comum das escalas é a aritmética (ou escala linear). Os gráficos que a utilizam são semelhantes a uma régua, pois os intervalos entre as medidas são iguais à unidade utilizada.

 

Figura – Escala Aritmética.

Fonte: Elaborada pelo autor.

 

Nesse gráfico, a distância entre as unidades são idênticas, ou seja, a distância entre 2,00 e 4,00 é a mesma que entre 28,00 e 30,00. Essa escala nem sempre é útil, pois os ganhos auferidos com os investimentos se dão em percentual. Por exemplo, uma ação que valorizou de 2,00 para 4,00 teve ganho maior em porcentagem do que uma que valorizou de 28,00 para 30,00. Pois de 2,00 para 4,00 houve um ganho de 100%; e de 28,00 para 30,00 houve um ganho de 7,14%.

Uma alternativa para essa problemática é a escala logarítmica:

 

Figura – Escala Logarítmica.

Fonte: Elaborada pelo autor.

 

A distância entre os pontos nessa escala se dá em percentual. Ou seja, a distância de 2 a 4 (100%) será a mesma que a distância entre 8 e 16 (100%), e assim por diante. Portanto, essa escala permite a comparação entre rentabilidades ou perdas. Observe, por exemplo, dois gráficos distintos para o mesmo ativo e para o mesmo período:

 

Figura – Gráficos em diferentes escalas para um mesmo ativo.

Fonte: Elaborados pelo autor.

Os gráficos são respectivamente: logarítmico e aritmético. É perceptível que o gráfico aritmético superestima os ganhos realizados. Além disso, à medida que são acrescentados valores no eixo vertical, a perspectiva de análise do gráfico muda.

O analista técnico deve atentar às variações ocorridas nos ativos. Caso elas sejam exponenciais, é recomendável utilizar a escala logarítmica, que realça esses comportamentos. Além disso, é importante ressaltar que essa escala tende a dar menos ênfase aos eventos atípicos e realça mais as tendências de longo prazo.

1.4 PERÍODOS GRÁFICOS

Os gráficos que utilizam o tempo como um dos eixos podem utilizar diferentes intervalos. São alguns deles:

  • Intraday (“intradia” – intervalos de tempo dentro do próprio dia);
  • Diário;
  • Semanal;
  • Mensal.

Figura – Exemplo de gráfico diário com ações da PETR4 – Diário (também pode ser representado por 1D).

Fonte: Elaborado pelo autor.

Figura – Exemplo de gráfico semanal com ações da PETR4 – Semanal (também pode ser representado por 1S).

Fonte: Elaborado pelo autor.

Figura – Exemplo de gráfico mensal com ações da PETR4 – Mensal (também pode ser representado por 1M).

Fonte: Elaborado pelo autor.

Note que à medida que o intervalo de tempo aumenta, o gráfico anterior é incorporado como parte do gráfico posterior.

Quanto maior a propensão a especular do investidor, menores serão os períodos de tempo utilizados nos gráficos. Isto é, as decisões grafistas necessitam de grandes amostras, mas como é adotado um prazo curto, é preciso utilizar períodos menores para identificar as oportunidades em prazos muito curtos.

1.6 INDEXAÇÃO

A indexação consiste em referenciar os valores de um gráfico em relação a outro gráfico. Esse gráfico é chamado de gráfico indexado ou gráfico dividido por um indexador. Ou seja, são observadas as proporções entre os diferentes ativos, e assim comparada a rentabilidade dos ativos analisados. Geralmente, o indexador é um outro ativo de renda fixa ou a própria inflação. Nesse último caso, é chamado de correção ou indexação dos preços, pois mostra o preço do ativo corrigido. Desse modo, esse gráfico permite verificar se os retornos dos ativos analisados compensam mais que o indexador

Já quando se trata de uma ação, por exemplo, pode ser utilizada outra ação ou um índice, a fim de avaliar o comportamento da ação em relação ao setor ou o próprio mercado como um todo.

Há valorização em gráfico indexado quando:

  • o ativo analisado subir e o indexador cair;
  • o ativo valorizar mais que a valorização do indexado; ou
  • o indexador desvalorizar mais que a desvalorização do ativo.

Há desvalorização em gráfico indexado quando:

  • o indexador subir e o ativo analisado cair;
  • o indexador valorizar mais que a valorização do ativo; ou
  • o ativo desvalorizar mais que o indexador dele.

Considere como ativo a ação VALE5 e como indexador a ação PETR4. O gráfico indexado deve ser analisado da seguinte forma:

  • Se a análise do gráfico indica compra, deve-se comprar VALE5 e vender PETR4. Justificativa: o desempenho da VALE5 é maior que o da PETR4.
  • Se a análise do gráfico indica venda, deve-se vender VALE5 e comprar PETR4. Justificativa: o desempenho da PETR4 é maior que o da VALE5.

1.7 GRÁFICOS PERPÉTUOS OU CONTÍNUOS

As séries financeiras representadas nos gráficos nem sempre apresentam continuidade. Isso dependerá do ativo analisado. Por exemplo, contratos futuros apresentam data de vencimento e, portanto, o mesmo contrato não pode ser analisado em diferentes anos. As séries que têm “prazo de validade”, como alguns derivativos, são consideradas não perpétuas. Observe o contrato de milho a seguir:

 

Figura – Exemplo de gráfico de c.

Fonte: Elaborado pelo autor.

 

Nesses casos, a continuidade observada, por exemplo, no gráfico apresentado para a PETR4 para diferentes anos não pode ser observada claramente para um derivativo. Nesse caso, é realizada uma espécie de “emenda” entre as séries.

No caso de contratos futuros, são conjugadas as séries para os contratos de mesmo vencimento. Assim, a série de um contrato com vencimento em março de 2017, por exemplo, é agrupada com a série de outro com vencimento em março de 2018. Para isso, logicamente, é respeitado o ativo em questão (mesmo ativo objeto).

Para que esse processo seja corretamente realizado, é preciso respeitar alguns critérios, como:

  • A liquidez do contrato não pode estar muito baixa. Portanto, o dia de vencimento não pode ser utilizado para interconectar as séries;
  • Para interconectar as séries, é realizada a divisão da série antecessora à próxima por um fator.

Esse trâmite aumenta as séries e torna-as perpétuas, possibilitando que o analista técnico utilize uma variedade maior de ferramentas e possa trabalhar com séries contínuas.


Doutor em Economia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Mestre em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Pelotas. É economista, especializado em Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atuou como Analista e Controller. Pesquisa efeitos spillover e herd behavior no mercado de ações. Produz estudos sobre basis risk no mercado de derivativos.
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